- Maria Augusta Carneiro Ribeiro-
15 de maio de 2009
MEMÓRIA
Aos 62 anos, morreu, no Rio de Janeiro, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a única mulher entre os treze presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado em 1969 pelo MR-8.
Ela está na célebre foto em que o grupo - que incluía José Dirceu, Vladmir Palmeira e Flávio Tavares - aparece em frente ao avião da FAB que o levou para o México.
Dez anos depois, com a anistia, voltou ao Brasil.
Desde 2003, trabalhava como Ouvidora da Petrobras.
Guta, como era conhecida, sofreu um acidente em Búzios (RJ), há cerca de um mês e desde então estava internada no hospital Copa d'Or.
Numa foto que correu mundo em setembro de 1969, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, então com 22 anos, era a única mulher entre o grupo de guerrilheiros trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, que incluía o deputado José Dirceu (na foto à esquerda, o segundo em pé a partir da esquerda). Na imagem histórica, Guta, como preferia ser chamada, não esboçava uma de suas marcas mais fortes: o sorriso franco e aberto. O momento era de extrema tensão. Naquela altura, a polícia política já havia localizado o cativeiro no qual um comando do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, o MR-8, mantinha o embaixador, no Rio de Janeiro. Corriam rumores de que, se conseguisse resgatar o americano antes de os prisioneiros políticos chegarem ao exílio, no México, eles seriam atirados do avião em alto-mar. Outro detalhe crucial é que os belos dentes de Guta haviam sido quebrados a murros por um torturador.
Guta preferia não lembrar esses detalhes. Mas se emocionava até as lágrimas ao contar os reflexos de seu trabalho nos grotões do País.
No comando da Ouvidoria da Petrobras, ela colocou em prática uma política que prioriza os direitos humanos. “Embora com armas diferentes, continuo fazendo a mesma coisa, lutando por um Brasil melhor”, compara. A reviravolta começou na própria empresa, onde, durante 49 anos, as mulheres eram identificadas no masculino. As geólogas assinavam, portanto, como geólogos. As secretárias exibiam crachá como secretários e por aí afora. As mudanças mais emblemáticas, porém, acontecem nas comunidades nas quais a Petrobras atua, numa perspectiva de empresa extratora que assume responsabilidades. Tudo sob o olhar atento de Guta e o apoio de um voluntariado corporativo que reúne mais de 1.200 pessoas e envolve 66 municípios. E ela ainda encontrava energia e tempo para se dedicar aos três filhos, o mais velho, 28 anos, nascido com uma lesão cerebral grave, na Suécia, nos tempos de exilada.
Obituário - Maria Augusta Carneiro, a Guta, aos 62
Filha de um engenheiro e uma dona de casa, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a Guta, dizia, brincando, que nascera à beira da estrada, em 25 de fevereiro de 1947, mais precisamente em Montes Claros (MG). Ali, o pai construía a estrada de ferro Minas-Bahia.
De família baiana, a convivência com a política já era forte desde a infância, pois a bisavó e o avô foram militantes de causas sociais.
O pai, Raimundo Carneiro Ribeiro, comunista quando estudante, deixou a militância ao se casar. Já o envolvimento de Guta com a militância política começou no secundário, quando veio com a família da Bahia para o Rio, no fim dos anos 50, e foi matriculada no Colégio Anglo-Brasileiro. Guta achava a rotina escolar uma chatice, como contou em entrevista ao Projeto Memória do Movimento Estudantil, em 2005. Os pais descobriram que ela não estava se esforçando nos estudos e a transferiram para a Santa Úrsula.
No novo colégio, ela foi eleita para o grêmio. Passou a fazer parte da Juventude Estudantil Católica. Em 1964, com o golpe, Guta conta ter sido "mandada embora" pelas freiras, por ser considerada comunista. Foi enviada pelos pais aos Estados Unidos, onde ficou um ano.
De volta, entrou para a Dissidência Comunista. Levou a militância para a Faculdade de Direito, da UFRJ, onde foi estudar e assumiu o posto de presidente do centro acadêmico.
Acabou presa durante o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em
1968, em Ibiúna (São Paulo).
Guta esteve duas vezes na cadeia. Sofreu torturas aos 22 anos e foi banida do País pela ditadura militar, com outras 14 pessoas, em 1969, em troca da libertação do embaixador americano Charles Elbrick.
Ela aparece na foto histórica, algemada, ao lado, entre outros, do ex-ministro José Dirceu, de Vladimir Palmeira e Flávio Tavares. Passou pelo México e viveu dois anos em Cuba, onde fez treinamento militar - a ideia era retornar ao Brasil para continuar o combate. Não conseguiu e rumou para o exílio no Chile.
Guta voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, e custou a arrumar emprego. Segundo ela, era vetada por causa do passado.
Até que conseguiu ingressar na Vale do Rio Doce, por concurso, onde montou o trabalho de comunicação interna da empresa. Em fevereiro de 2003, assumiu o cargo de ouvidora-geral da Petrobras. A atuação dela como guerrilheira na luta contra o regime militar está contada no livro "Exílio, entre raízes e radares", de Denise Rollemberg.
Guta, de 62 anos, sofreu um acidente de carro em 25 de abril, em Búzios. Morreu ontem (15 de maio), de infecção sistêmica, no Hospital Copa D'Or. A Petrobras divulgou, ontem, nota lamentando a morte da ouvidora-geral: "Maria Augusta transformou a Ouvidoria Geral numa importante ferramenta para a garantia da transparência, valorização dos princípios éticos e respeito aos direitos humanos e ao Pacto Global da ONU".
O presidente Lula divulgou a seguinte nota: "Maria Augusta dedicou sua vida à luta pela justiça social e a democracia.
Foi um símbolo de bravura na resistência à ditadura.
Nos últimos anos, como ouvidora da Petrobrás, teve uma atuação reconhecidamente inovadora, empenhando-se em construir na empresa um espaço de transparência e diálogo. A seus familiares e amigos, minhas mais sinceras condolências".
O velório aconteceu em 16 de maio, na capela 7 do Cemitério São João Batista. O corpo foi cremado.
Guta morava no Flamengo e deixa três filhos.
FONTE: Memória Lélia Gonzalez